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Raul Ladeira

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Na Rua dos Canastreiros

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Pintar no campo

Entrevista

Raúl, vou te pedir que me fales um pouco de ti.

Eu sou um foto-designer, no sentido em que ponho em primeiro lugar a fotografia, porque ela, afinal, serve-me como designer… Encomendo-me trabalhos fotográficos a mim próprio. Isso facilita-me muito a vida. Em comparação, tenho colegas designers que estão normalmente dependentes de um ilustrador ou de um fotógrafo, mais isso são outras estórias.

Gosto muito de ilustração, fiz banda-desenhada durante alguns anos e até publiquei umas coisas. Na Escola Superior Belas-Artes de Lisboa estudei pintura e design, depois, na ARCO, desenho, muito desenho. Percebi, a certa altura que, com a fotografia, alcançava o mesmo resultado comunicacional, mas muito mais rapidamente. É por isso que, muitas vezes, faço imagens e imprimo em tela e isso já me trouxe alguns momentos irónicos: a partir de certa altura, algumas pessoas diziam-me que tinham visto uma pintura minha, recente. Afinal, era “apenas” uma fotografia. Esse pormenor da impressão em tela permite-me, também, ser “pintor” – desenhar, escrever, pintar com a luz. Nesse caso, a fotografia já impressa, vive por si mesma, como objeto independente, não é apenas a imagem captada de alguma coisa, ou de alguém.

Raúl, conta-me um pouco do teu processo… Como é que tu trabalhas a fotografia, é sempre da mesma maneira ou vais variando?

Atualmente não tenho por hábito estar sempre no meu atelier. O meu trabalho é desenvolvido através do computador, é maioritariamente um processo digital, mas não foi sempre assim, passava horas no laboratório a revelar e ampliar a preto e branco, depois a cores – que ainda era mais demorado –, mas esta hipótese de poder ter as impressões em novos suportes e materiais, interessa-me bastante.

No livro das ‘Janelas Indiscretas’ podemos encontrar várias composições, onde se juntam certos momentos e situações que por vezes são de outras ocasiões mas são fortes combinadas e contam-nos uma narrativa que nos prende.

Sim, neste livro, posicionei-me quase como se estivesse a desenvolver a minha tese: As cores do Norte Alentejano,
a sua variedade e a sua apropriação, pelas gentes que aqui vivem… é curiosa, essa pergunta, porque realmente, no desenrolar do livro, surgem situações em que há um diálogo visual, plástico, entre as pessoas, os animais, a
flora e a arquitetura popular – que sempre me interessou –, e sempre a cor, a cor presente na natureza. Os pigmentos naturais permitem colorir quase tudo, tornando a cal, na tela suprema, aliada à capacidade e ao gosto, que conseguimos ver, ainda hoje, no Alentejo. Essa capacidade que existe principalmente no Alto Alentejo, esta região que marca, com a Serra de São Mamede, o sul do Norte e norte do Sul de Portugal.
Tive a oportunidade de ter a colaboração de Carlos Garcia de Castro, um poeta portalegrense com quem trabalhei noutras edições.

Há alguma coisa que gostasses de fotografar e que não tenhas tido oportunidade?

Ui tantas. Tudo! Gosto muito de procurar e fotografar tudo – nesse aspeto não sou muito conservador. Sou capaz de estar a fazer um trabalho e depois distancio-me dele e começo a fotografar outras coisas, que em termos gráficos me chamem à atenção.

Se pudesses resumir o teu trabalho numa frase, há alguma coisa que queiras referir?

Acho que não, isto já é tanta coisa.

E algum projeto em mente?

Sim, sim… agora estou a fazer umas coisas que me tem dado algum prazer… tenho encontrado, formas interessantes nas paredes, aumentadas com estas últimas chuvas intensas. Com o processo de degradação, e a falta de manutenção, vejo formas muito interessantes, não só as mais abstratas, que já fotografo há algum tempo, mas outras, bem mais figurativas. A principal questão é saber se essas formas que vejo, coincidem, através da fotografia, que faço, com a interpretação das imagens, feita pelas pessoas que as vão ver, numa próxima exposição ou publicação.

Obrigado, Raúl!

Obrigado, Luís.

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