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Guarda Jóias e Pescadores de Pérolas

Outrora existiu no país uma importante arte de joalharia, não da forma como hoje a pensamos, mas recolhida a uma ideia de teia, corda e miniaturismos delicados, aliás, Gil Vicente era joalheiro, e daí passaria à plasticidade das suas personagens tipo, que a escrita é ainda a manifestação de uma outra forma gráfica e visual encadeada em signos de natureza composta. Este local não sendo feito a cravejamentos de pedra rara, nem sendo o mar das ostras antigas, tem o encanto das iniciações.

Foi com agrado e imenso interesse que observei novas gentes em novos espaços com temáticas quase eternas, conseguindo dar forma não só a um local, mas a um modelo de vida, ora, a forma como olhamos para aquilo que deveria ser a mesma coisa, muda radicalmente pelo ângulo da observância que o tempo nela imprime, que o impulso sendo o mesmo tem novas formas de o conceber.

Longe vão os tempos do “marchand” e de tudo aquilo que foi a longa oferta pública da arte, que ela existe fora das tutelares visitações dos grupos mercantis que não sabíamos contornar. Ela é tão singular como a demanda do viver. Nos anteriores tempos havia pintores de monta, sim! Talentos espetaculares que lutavam com pincéis como ferraduras de arremesso, grandes e vertiginosos dons saídos da indignação e inclemência face a regimes impiedosos e duros que tiveram o seu expoente máximo de condenação quando foram apelidados de «arte desnaturada», esse obscurantismo que lutou arduamente contra as modernidades, e com elas, travestidos posteriormente de mercadores, negociaram até à exaustão os seus emblemas.

O que aqui se encontra nos artistas expostos não perdeu a singularidade dessa forca. Antes pelo contrário.

Reverberou-a. Só que mais feliz. As gigantescas massas obscuras dos « Novos Selvagens» ou do « Gestualismo» deram lugar a uma perspectiva onde mais sonho impera, porém, em todas as obras estão presentes os ritmos anti-sensórios dos seus antepassados, a força contestarária virou alegria. Creio que esta foi a maior impressão registada, e com ela deslizei na qualidade essencial do que aqui se apresenta. Todos eles são grandes luminárias.

O que se passa aqui vale bem uma “missa”;

Henrique IV quando entrou em Paris. E assim renunciou ao Protestantismo ‘soi- disant” e ficou rendido a coisa desconhecida.

É com iniciativas assim que o mundo gere as suas arquitecturas, e que o espaço visual moldará a nossa sugestão aos efeitos dos factos onde as mudanças nunca serão pontuais. Toda uma logística na temática da oferta povoada de códigos renovados são a essência transbordante de um mundo em mudança. Falamos de pintura, e até o mais insondável dos participantes nos obriga a ponderar o porquê de não o termos visto como personagem excepcional. – Que eles são excepcioniais.

É destas iniciativas a um canto de um grande Pátio, que podem nascer personagens tão grandes como aquelas que firmaram os movimentos intempestivos para derrube de outras formas de sociedade. Porém, vejo-lhes o nervosismo e o rigor de uma aturada educação a que não desejam, e bem, renunciar.

Tudo isto seria no entanto um diálogo vazio se nele não tivesse antevisto uma grande capacidade de contínua e transformativa processão. Eles vão continuar, e a excepcionalidade valerá como em todos os tempos, mas talvez a forma como a contemplemos seja já, e neste este caso, radicalmente diferente. Muitos morreram para ir em debandada buscar as pérolas no fundo dos mares, não creio que seja este o caso, nem tão pouco uma ourivesaria monótona povoada de códigos e filigranas que ficavam somente muito belas nos colos feminis.

A visão visual dos belos que renascem, pode partir de coisas como estas. Quanto às tertúlias e publicações não será demais lembrar que são estes os movimentos que importam ser conectados no transbordo das necessidades futuras para novo apelo, e que a arte em si se manifeste com todos reunidos mas impedindo o verme sombrio do idolatrado.

Não vos iremos esquecer.

Amélia Vieira
31 de Março de 2023

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